Alguma vez ficou insatisfeito porque o seu smartphone começou a congelar exatamente um ano depois de o ter comprado? Ou porque a sua impressora começou a mostrar uma mensagem a indicar a substituição do cartucho, mesmo que o cartucho ainda não estivesse vazio? Ou talvez algo tenha avariado de repente logo após a garantia expirar?

Se sim, já se deparou com a obsolescência programada — um sistema em que os fabricantes limitam deliberadamente a vida útil dos seus produtos. Isto não é um efeito secundário da produção em massa e não é apenas uma redução de custos nos materiais. É uma estratégia deliberada desenhada para o obrigar a comprar novos produtos em vez de reparar os antigos.
Este fenómeno tem uma data e local de nascimento muito precisos. A 23 de dezembro de 1924, em Genebra, Suíça, um grupo de magnatas industriais reuniu-se à volta de uma mesa e tomou uma decisão que mudaria o mundo para sempre. Entre os conspiradores estava o muito querido Philips.
Esta história começou com lâmpadas incandescentes comuns — mas os seus ecos ainda se sentem hoje.
A Grande Conspiração
A 23 de dezembro de 1924, enquanto a maior parte da Europa se preparava para o Natal, teve lugar um encontro num hotel de Genebra que ficaria para a história como a conspiração industrial mais bem-sucedida do século XX. À volta da mesa sentavam-se representantes dos maiores fabricantes mundiais de lâmpadas.
Da Alemanha veio Wilhelm Meinhardt, chefe da Osram, que foi o iniciador da reunião. Os Países Baixos foram representados por Anton Philips, fundador do império Philips. França pela Compagnie des Lampes. Os Estados Unidos por gestores de topo da General Electric, formalmente através das suas subsidiárias europeias. Também estavam presentes delegados do Tungsram da Hungria, da Associated Electrical Industries britânica e da Tokyo Electric do Japão.
Estes homens controlavam praticamente todo o mercado global de iluminação. E não se reuniram para competir — mas para dividir.
A organização que fundaram recebeu um título nobre: “Convenção para o Desenvolvimento e Progresso da Indústria Internacional de Lâmpadas Incandescentes.” Os documentos fundadores falavam de “garantir a cooperação de todas as partes”, “utilização eficiente da capacidade produtiva”, “manter uma qualidade uniformemente elevada” e “melhorar a eficiência da iluminação em benefício dos consumidores.”
Por trás destas belas palavras escondia-se uma verdade cínica. O cartel, chamado ‘Phoebus’ em homenagem ao deus grego da luz, tinha três objetivos simples: dividir o mercado global, fixar preços a um nível elevado e limitar a vida útil das lâmpadas a 1.000 horas.
Até 1924, os fabricantes anunciavam orgulhosamente a durabilidade. Os anúncios gabavam-se: “As nossas lâmpadas duram 2.500 horas!” ou “Garantido para 2.000 horas de serviço!” O Cartel Phoebus virou essa lógica do avesso. A partir daí, nenhuma lâmpada duraria mais de 1.000 horas — cerca de 41 dias de uso contínuo. Foi uma jogada deliberada para piorar os produtos para vender mais.
Porque é que os fabricantes conspiraram
Para perceber porque é que os principais produtores de lâmpadas recorreram a uma conspiração global, é preciso olhar para o caos do início dos anos 1920.
A eletrificação estava a varrer o mundo. As cidades estavam a mudar de lâmpadas a gás para iluminação elétrica. Surgiam novas aplicações: faróis de carros, candeeiros de bicicleta, iluminação pública. O mercado estava em expansão — ou assim parecia.
Mas a realidade era brutal. Milhares de fabricantes entraram na corrida — desde corporações globais a pequenas oficinas. A tecnologia estava a evoluir a um ritmo vertiginoso:
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em 1906, surgiram lâmpadas de pasta de tungsténio,
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em 1911, a GE introduziu filamento puro de tungsténio,
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em 1913, a lâmpada cheia de gás, que produzia cinco vezes mais luz para a mesma energia.
Cada avanço transformava milhões de lâmpadas existentes em sucata. Os investimentos em fábricas foram destruídos em poucos meses. Nenhuma empresa conseguiu planear mais do que um ano à frente.
Até os gigantes estavam a colapsar. Em 1922–23, a Osram vendeu um recorde de 63 milhões de lâmpadas na Alemanha. Apenas um ano depois, as vendas caíram para 28 milhões — uma queda de mais de 50%.
Wilhelm Meinhardt percebeu o paradoxo: quanto melhores as lâmpadas, menos eram vendidas. A solução foi radical: limitar a vida útil das lâmpadas a 1.000 horas, e os consumidores comprariam 2,5 vezes mais.
Como pioraram deliberadamente os produtos
A ideia de Meinhardt tornou-se realidade. O Cartel Phoebus criou a primeira conspiração corporativa verdadeiramente global.
Cada membro recebeu uma quota de produção. Por exemplo, a fábrica da Philips em Eindhoven podia produzir entre 10 e 12 milhões de lâmpadas por ano, mas o cartel permitia apenas 5,7 milhões. O resto da capacidade ficou parado, mantendo os preços elevados.

O desafio de engenharia era claro: como reduzir a vida útil das lâmpadas de 2.500 para 1.000 horas? Foram utilizados três métodos:
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Corrente crescente — luz mais forte, vida útil mais curta.
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Manipular a tensão.
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Modificar o filamento de tungsténio para que falhasse mais cedo, mas de forma previsível.
Em 1933–34, a vida média das lâmpadas desceu de 1.800 horas para 1.205 horas. Nenhuma fábrica produziu lâmpadas com duração superior a 1.500 horas.
Um laboratório suíço fazia cumprir o cumprimento: todas as fábricas tinham de enviar amostras. O resultado ideal foi exatamente 1.000 horas. Uma vida mais longa significava multas.
Um caso famoso foi a Tokyo Electric: em 1927, as suas vendas multiplicaram-se por cinco devido a lâmpadas de curta duração, mas foi multada por exceder quotas.
O que os Conspiradores Conseguiram
O esquema resultou. Em 1926–27, as vendas globais atingiram 335,7 milhões de lâmpadas. Quatro anos depois — 420,8 milhões, um aumento de 25%. Os consumidores substituíam as lâmpadas a cada 10–12 meses em vez de a cada 2–3 anos.
A resistência dentro do cartel foi esmagada. Anton Philips escreveu zangado à International GE: “Depois dos enormes esforços que fizemos para escapar ao período das luzes de vida útil, é extremamente importante não cair novamente nesse pântano.”
No final da década de 1920, o Cartel Phoebus controlava o mercado global de iluminação.
Como o Cartel Colapsou
Houve várias razões principais para o colapso do cartel Phoebus, que se sobrepunham:
- Japão e pequenos fabricantes Existiam centenas de pequenas oficinas no país a produzir candeeiros baratos que não cumpriam o ‘padrão das 1000 horas’. As suas lâmpadas eram tanto mais duráveis como mais baratas, pelo que a produção japonesa cresceu de 45 milhões para 300 milhões de unidades entre 1922 e 1933. Estas mercadorias inundaram o mercado de exportação e minaram a posição do cartel.
- Expiração das patentes da General Electric Em 1929, 1930 e 1933, as principais patentes da GE sobre a tecnologia de fabrico de lâmpadas incandescentes expiraram. Isto reduziu drasticamente as barreiras à entrada no mercado, e novos intervenientes puderam fabricar produtos fora do controlo do cartel.
- A Grande Depressão (1929–1933) A crise económica obrigou os consumidores a poupar. As vendas do cartel caíram 20%, apesar do crescimento global no mercado global de iluminação.
- Fatores políticos O nacionalismo intensificou-se na Europa, tornando a cooperação internacional cada vez mais difícil. Nos Estados Unidos, as autoridades começaram a investigar preços inflacionados.
- Segunda Guerra Mundial Depois do início da guerra, o comércio internacional praticamente cessou. Em 1940, o acordo de Phoebus, que deveria manter-se em vigor até 1955, foi oficialmente anulado.
Assim, a principal razão para o colapso do cartel foi uma combinação de fatores externos: concorrência de fabricantes independentes (especialmente do Japão), a perda da proteção de patentes e crises globais (económicas e militares) que tornaram impossível manter a conluio internacional.
Como o Cartel Ainda Molda Hoje
Hoje, os métodos do cartel Phoebus continuam a existir numa forma modernizada. Claro que os fabricantes em muitas indústrias já não se envolvem em conluio aberto, como fizeram em 1924. Mas precisam de vender cada vez mais, por isso usam métodos semelhantes incorporados nos seus modelos de negócio.
Ao compreender os seus métodos, podemos tirar conclusões e tentar selecionar o equipamento para não cair em truques de marketing. A empresa PressInspection está a oferecer um serviço para otimizar a fábrica de produção de impressão.
Obsolescência física
O equipamento é deliberadamente tornado menos durável ou não reparável.
- Smartphones com baterias coladas que não podem ser substituídas sem manutenção.
- Eletrodomésticos onde as peças de plástico falham mais rapidamente do que as suas contrapartes metálicas.
- Na impressão, equipamentos pós-impressão, especialmente equipamentos chineses baratos: as peças têm uma vida útil limitada e as peças sobressalentes não estão disponíveis.
Obsolescência do software
As atualizações de software privam os dispositivos de desempenho ou compatibilidade.
- A Apple admitiu que atrasou os iPhones mais antigos (o escândalo de 2017). E a empresa foi obrigada a pagar uma multa enorme, que, no entanto, era incomparável ao nível do escândalo.
- Impressoras HP e Epson imprimem em bloco quando atingem o ‘fim da sua vida útil’, mesmo que haja tinta no cartucho.
- Na impressão, máquinas digitais: a descontinuação do suporte a drivers, atualizações do sistema RIP ou cartuchos chipados tornam o equipamento inutilizável.
Obsolescência moral
Um produto passa de moda, mesmo que funcione corretamente.
- Fast fashion: Zara, H&M, as coleções são atualizadas todas as semanas, os artigos ficam desatualizados mais depressa do que se desgastam. Nem sequer vamos abordar a ladeira escorregadia do trabalho infantil em certos países e o uso de corantes de roupa perigosos que se lavam após algumas lavagens.
- Na tecnologia, são lançados ‘novos modelos’ todos os anos com alterações mínimas, o que psicologicamente leva os consumidores a atualizar.
- Na impressão, o marketing dos fabricantes: uma nova série de máquinas digitais é posicionada como um ‘padrão obrigatório’ para as gráficas, mesmo que o modelo anterior ainda imprima.
Obsolescência sistemática através do ecossistema
Criando condições em que o consumidor fica ‘preso’ à marca.
- Os fabricantes de automóveis integram a eletrónica de forma a que só podem ser substituídos por um concessionário.
- Nos smartphones e eletrodomésticos, são usadas ‘peças originais’ com códigos de série, que não são aceites pelo dispositivo durante reparações não oficiais.
- Na impressão, as máquinas de impressão digital só funcionam com consumíveis ‘de marca’ com chips únicos, e o fabricante pode deixar de os produzir a qualquer momento.
Hoje, as empresas não operam através de conspirações internacionais diretas, mas sim através de tecnologia, licenças e marketing, que conduzem efetivamente ao mesmo resultado — uma redução na vida útil dos equipamentos e um aumento da frequência das compras.
O que isto significa para a indústria da impressão
Os princípios introduzidos pelo cartel Phoebus na década de 1920 refletem-se diretamente no equipamento de impressão atual. Só que agora não estamos a falar de lâmpadas, mas de máquinas de impressão e pós-impressão, onde os fabricantes usam mecanismos mais sofisticados para reter clientes.
Obsolescência física
O equipamento é feito para ter uma vida útil limitada.
- As máquinas digitais são concebidas para um certo número de ‘cliques’ (impressões). Uma vez atingido o limite, os módulos de impressão precisam de ser substituídos — e isto é quase sempre uma operação dispendiosa.
- As máquinas pós-prensa de marcas chinesas costumam ter uma vida útil baixa para rolamentos, motores e eletrónica. Não dispõem de uma base de serviço nem de armazéns adequados de peças sobressalentes, por isso a máquina muitas vezes avaria antes de conseguir pagar-se.
- A geração mais recente de máquinas offset contém mais plástico e eletrónica do que os clássicos das décadas de 1980 e 1990. Muitas peças não podem ser reparadas e têm de ser substituídas como uma unidade completa.
Obsolescência do software
O software torna-se uma ferramenta de controlo.
- Impressão digital: a maioria das máquinas só funciona com software proprietário RIP e cartuchos com chips. Assim que o fabricante deixa de suportar consumíveis, a máquina torna-se sucata, mesmo que possa estar em perfeitas condições mecânicas.
- Alguns modelos são bloqueados por atualizações: sem o firmware mais recente, o equipamento não aceita cartuchos nem arranca.
- Uma situação semelhante ocorre com interfaces CIP3/CIP4 e sistemas de monitorização remota: versões mais antigas do software já não são suportadas e a máquina é ‘retirada’ da cadeia de controlo de produção.
Obsolescência geral
O marketing convence-nos de que uma máquina antiga ‘já não é fiável’.
- Os fabricantes lançam novas linhas a cada 2–3 anos, e as gráficas são levadas a acreditar que, se não tiver ‘LED-UV’, ‘Push-to-Stop’ ou ‘Digital Hybrid’, não é competitivo.
- No entanto, a realidade é que máquinas com 10–15 anos continuam a imprimir perfeitamente bem. Mas o mercado e os clientes começam a percebê-los como ‘obsoletos’.
Dependência de ecossistemas
A tendência atual é ‘prender’ o cliente ao ecossistema.
- Xerox, HP, Konica Minolta, Ricoh e outros fabricantes digitais usam chips em cartuchos e tambores: estão ‘ligados’ a uma máquina específica.
- Na impressão offset, os roletes, sensores e placas originais são significativamente mais caros do que os seus análogos, mas muitas vezes a máquina não funciona sem peças sobressalentes ‘de marca’.
- Os fabricantes vendem cada vez mais equipamentos sob ‘contratos de clique’ — na prática, o cliente não é proprietário da máquina, mas aluga-a e os consumíveis.
Consequências para o mercado
- A vida útil do equipamento é reduzida: enquanto as máquinas offset funcionavam normalmente de forma fluida durante 25–30 anos, muitos modelos digitais são agora dados de baixa após apenas 7–10 anos.
- Maior dependência do fabricante: as gráficas não podem escolher livremente consumíveis e serviços, apenas o canal oficial.
- Aumento do custo de manutenção: quanto mais curto for o ciclo de vida, mais rapidamente o equipamento precisa de ser completamente substituído.
Risco de paragem da produção: descontinuação dos consumíveis = paragem da máquina, mesmo que a mecânica esteja em ordem.
Como podemos melhorar a situação?
As gráficas estão sempre num vazio de informação e são forçadas a acreditar apenas no que encontram nas ofertas dos vendedores. Com o seu charme, os vendedores podem impor-lhes qualquer equipamento ‘novo’, de acordo com o princípio que descrevemos acima.
No entanto, o mesmo objetivo pode ser alcançado de uma forma muito menos dispendiosa. Três unidades de equipamento de baixo desempenho podem ser substituídas por uma unidade de alto desempenho. A linha de corte de papel pode ser facilmente modernizada e integrada na produção. Dentro de 2-3 semanas, realizaremos uma auditoria à sua produção, após a qual ofereceremos várias opções de otimização.
Garantimos que os seus ganhos serão significativos.
